Reproduzo aqui crônica de Martha Medeiros no Jornal "O Globo": Sempre que chega o dia Internacional da Mulher, procuro fugir do discurso de vitimização que a data invoca. Não que estejamos com a vida ganha, mas creio que as mulheres já mostraram a que vieram e as dificuldades pelas quais passamos não são privilégio nosso: injustiça e violência são para todos. Temos, ainda, o grande desafio de conciliar as atividades domésticas com a realização profissional, é precisamos, naturalmente, da parcela do estado e da parceria dos parceiros: ser feliz é um trabalho de equipe. Mas não vou utilizar este dia para colocar mais água no chororô habitual. Prefiro aproveitar para fazer um brinde á nossa importância não para a sociedade e nem para a família, mas umas para as outras.
Assistindo em DVD o delicado filme 'caramelo', produção franco-libanesa do ano passado, tive a sensação boa de confirmar que o tempo passa, os filhos crescem, os corações se partem, mas as amigas ficam. Como todos os filmes que abordam a amizade e a solidão intrínseca de toda mulher, este nos consola valorizando o que temos de melhor: a nossa paixão, a nossa bravura (sou mais macho que muito homem) e o bom humor permanente, mesmo diante de tristezas profundas.
No filmes, elas são cinco: a amante de um homem casado, a que tem pavor de envelhecer e por conta disso se submente a situações humilhantes, a garota muçulmana com casameno marcado que precisa esconder do noivo que não é mais virgem, a enrustida que se sente atraída por outras mulheres e a senhora que desistiu de investir no amor para cuidar da irmã mais velha, que é mentalmente perturbada. Todas diferentes entre si e todas iguais a nós: mulheres conflituadas, mas que podem contar umas com as outras em qualquer circunstância.
Recentemente recebi por e-mail um texto anônimo, em inglês, que falava justamente sobre isso: precisamos de mulheres à nossa volta. Amigas, filhas, avós, netas, irmãs, cunhadas, tias, primas. Somos mais chatas do que os homens, porém, entre uma chatice e outra, somos extremamente solidárias e companheiras de farras e roubadas. Esquecemos com facilidade as alfinetadas da vida e temos sempre uma boa dica para passar adiante, seja um filme imperdível, uma loja barateira ou uma receita para esquecer a dieta. Competitivas? talvez, mas isso não corrompe em nada a nossa predisposição para o afeto, a nossa compreensão dos medos que são comuns a todas, a longevidade dos nossos pactos, o nosso abraço na hora da dor, a nossa delicadeza em momentos difíceis, a nossa humildade para reconhecer quando erramos e a nossa natureza de leoas, capazes de humildade para reconhecer quando erramos e a nossa natureza de leoas capazes de defender não só nossos filhostes, mas os filhotes de todo o bando.
Aprendemos a compartilhar nossas virtudes e pecados e temos uma capacidade infinita para o perdão. Somos meigas e enérgicas ao mesmo tempo, o que perturba e fascina os que nos rodeiam. Brigamos muito, é verdade: temos unhas compridas não por acaso. Em compensação, nascemos com o dom de detectar o sagrado das pequenas coisas, e é por isso que uma amizade iniciada na escola pode completar bodas de ouro e uma empatia inesperada pode estimular confidências nunca feitas. Amamos os homens, mas casadas, mesmo, somos umas com as outras. Beijos 1000 para todas as mulheres do meu Brasil varonil.